Começou a Liga 26/27 e a habitual romaria aos estádios de quinze em quinze dias, ou semanalmente se a equipa jogar na Europa, está de volta. Sei o que representa o burburinho de uma nova época. Ver os reforços. Reencontrar as estrelas do ano passado. O cheiro a novo, como se de uma casa nova, ou de um livro acabado de comprar, se tratasse. A primeira vez que entrei num estádio de futebol tinha 5 anos. Já lá vão quase 45. Pela mão do meu padrinho. Não me lembro rigorosamente de nada, mas reza a lenda que o jogo ainda não tinha começado e já eu tinha devorado o farnel e que me diverti imenso... com os autoclismos, ao ponto de o jogo ter começado e eu não ter visto o primeiro golo do jogo. Pior estreia num jogo de futebol só a do meu primo, filho do meu padrinho, que foi ao estádio pela primeira vez, mais ou menos com a mesma idade, com uma bandeira na mão comprada nas habituais barraquinhas e que, quando foi o primeiro golo do jogo, a partiu nas costas do desgraçado que estava sentado à frente dele. A situação ainda piora, porque festejou o golo da equipa adversária... Voltando às minhas memórias, a primeira que tenho de um estádio foi passados alguns meses depois. Fui ver a seleção nacional contra a Polónia. Qualificação para o Euro’84, Luz à pinha como era habitual naquela altura. Ambiente de grande festa. Entram as equipas em campo. Toca o hino nacional. Levantam-se todos os mais de 100 mil espetadores para cantar “A Portuguesa”. E, para desespero de um miúdo de 5 anos e um metro de altura, nunca mais se sentaram. Lembro-me perfeitamente das costas do senhor que estava à minha frente, até porque Nené marcou logo aos 2 minutos. Tenho uma leve ideia dos festejos do golo de Fernando Gomes. Já perto do final, recordo-me de estarmos a sair à pressa para evitarmos a confusão da saída e de sentir uma tensão e silêncio quando os polacos fizeram o 2-1. Já nas escadas, recordo-me do vibrar do estádio com uma vitória fundamental e que colocou Portugal no caminho da presença na fase final de um Europeu pela primeira vez. Recentemente revi o resumo desse jogo; para mim, Portugal x Polónia foi sinónimo de uma camisa branca do cavalheiro que estava, não propriamente sentado, mas sim em pé à minha frente durante 89 minutos… Mas foi o suficiente para o bichinho lá ter ficado. Depois disso, já vi centenas de jogos em estádios de 4 continentes. Tive o privilégio de ver uma final de um Mundial, de um Europeu, de uma Liga dos Campeões, de duas Taças das Taças, uma Supertaça Europeia; jogos de ligas em todos os Big Five, mas também de campeonatos estranhos como da Guatemala, Singapura, Letónia ou Quénia. Em países que estão em guerra hoje, como Ucrânia ou Rússia. Na ilha de Farum, na Dinamarca, ou na Ilha da Culatra, no Algarve. O futebol deu-me mundo e ajudou-me a colocar pinos no mapa-mundo e a passar a geografia. Para lá da forma redonda da bola, só outra coisa é igual em qualquer parte do mundo e em todos esses jogos: a paixão dos adeptos. Sejam eles 135 mil, ao calor, na final do Mundial de sub-20 em Lisboa, ou meia dúzia a ver o Queluz X Unidos em iniciados, no início dos anos 90, ao frio e à chuva torrencial.
Mais do que a impressionante receção dos adeptos do Benfica à equipa antes do jogo com o Académico de Viseu, o que mais me impressionou foi a entrada no estádio dos jogadores. O descer das bancadas. O silêncio. Aquelas “vibes” de estarmos outra vez nos tempos da Covid. Não questiono o castigo, lei é lei, mas faz-me um pouco de confusão que no futebol, e no desporto, se aplique aquela máxima do antigamente, nos meus tempos de secundário. Quando a professora estava de costas e não percebia quem estava na palhaçada, a turma toda levava falta de mau comportamento ou éramos todos expulsos. Tive um professor de matemática com problemas de audição que sentia um ruído de fundo, virava-se e disparava para filas inteiras, tipo metralhadora: "tu, tu, tu, tu, tu: RUA!". Neste caso, tal como na educação de adolescentes, perderam todos. Perdeu, obviamente, o Benfica — um milhão e meio de euros, segundo consta pelas próprias contas. Perdeu o Académico de Viseu que, neste regresso à I Liga quase 40 anos depois, gostaria certamente de festejar o empate com os seus adeptos. Mas perdemos todos nós, porque o espetáculo ficou claramente mais pobre. Em vez de os justos pagarem pelos pecadores, os ingleses resolveram o assunto grave do hooliganismo precisamente com os pecadores a pagarem pelo que fizeram. e os justos a sentirem precisamente isso: justiça.
Durante a Covid foi questionado se fazia sentido o reatar do campeonato sem adeptos. E até os adeptos do Sporting, campeão nesse ano, certamente recordam com tristeza esses tempos. Ver a equipa a ganhar em estádios vazios. Ver um jogo de futebol de uma liga que se diz a melhor a seguir aos “big five” é, no mínimo, triste e um espetáculo pobre. E, mais uma vez, pelo comportamento de uns quantos, pagaram todos. Os adeptos do Benfica, mas também todos nós e, como diz o Luís Freitas Lobo, quem ama verdadeiramente o futebol só pode lamentar e ficar triste. Para a história e o registo da ficha de jogo fica a assistência de 1, repito, UM espetador no Benfica x Ac. Viseu da 1.ª jornada da Liga 26/27. Vamos recordar certamente isto durante muitos anos. Mas eu preferia recordar a belíssima e arrepiante entrada em campo do Vitória, em Guimarães. Ou do Marítimo, no Funchal, no regresso ao convívio dos grandes. E que grandes foram os seus adeptos. Esta crónica é para eles.


