Magnífico 7

MAGNÍFICO ON TOUR — O DESERTO NÃO FALA BAIXO

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MAGNÍFICO ON TOUR — O DESERTO NÃO FALA BAIXO

O Red Bull mete-se por dentro e eu sei perfeitamente o que acontece a seguir. Já vi esta ultrapassagem vezes suficientes. Ainda assim, quando penso em Abu Dhabi, lá estão eles: Verstappen e Hamilton, na última volta de 2021, um a caminho do primeiro título, o outro a perder o oitavo. Podiam ocorrer-me praias. Hotéis. Qualquer coisa que justificasse os calções e os chinelos que trouxe na mala. Mas não. O meu cérebro continua em serviço e, pelos vistos, ninguém lhe aprovou as férias. O Magnifico 7 volta à estrada. Neste caso entre a pista de Yas Marina e as dunas do deserto.

Depois das Ilhas Britânicas, o Magnífico 7 volta a sair de casa. Desta vez, para os Emirados Árabes Unidos, com primeira paragem em Abu Dhabi. Vim descansar. É preciso deixar isto escrito, até para me lembrar do propósito da viagem quando der por mim a consultar classificações de um campeonato qualquer. Para já, tenho praia e tempo. Uma combinação que recomendo, sobretudo a quem passa boa parte da vida a ouvir que faltam trinta segundos.

Yas Marina há de continuar ligado àquela corrida, por muito que se faça por lá. Discutiu-se a decisão, a forma como se chegou à última volta, o que devia ter acontecido. Ainda se discute. Aquela tarde acabou com Verstappen campeão e uma polémica que passou muito para lá da bandeira de xadrez.

Mas estou de férias em outubro e já ando a pensar em novembro. Entre 22 e 27, o Abu Dhabi Desert Challenge está anunciado como a última prova do Mundial de Rally-Raid. Martim Ventura, em Rally2, e Alexandre Pinto, com Bernardo Oliveira, em Challenger, chegam à decisão com hipóteses de conquistar os títulos das suas categorias. Ganharam em Marrocos. Falta Abu Dhabi. E, de repente, o deserto aqui ao lado interessa-me bastante mais do que interessava quando estava apenas a pensar na temperatura.

Há uma diferença considerável entre olhar para uma duna e ter de a atravessar depressa. Eu fico-me pela primeira parte. Eles passam dias a procurar caminho na areia, a gerir a mecânica e a fazer contas que um erro pode deitar fora. Gostava que esta viagem acabasse por me dar mais duas boas razões para voltar a olhar para Abu Dhabi em novembro. Com portugueses no alto do pódio, de preferência.

Entretanto, também há bola. Guga no Al Wahda, Rafael Rodrigues no Al Ain. Sabe bem encontrar estes nomes quando se olha para os plantéis. Falamos tanto dos grandes contratos e das estrelas que às vezes parece que não há mais ninguém a jogar deste lado do mundo. Há. Há carreiras a fazer, lugares a conquistar, treinos no dia seguinte. E laterais portugueses, que alguém tem de defender enquanto os outros aparecem nos vídeos dos golos.

Al Ain, já agora, também é emirado de Abu Dhabi. Convém lembrar isso antes de reduzir tudo à cidade e à ilha de Yas. O mapa estende-se, entram as dunas de Al Dhafra, e o desporto vai mudando pelo caminho.

Em Al Wathba, há corridas de camelos com pequenos jóqueis robóticos. Li e voltei a ler. Um camelo a correr, aceito. Um robô a fazer de jóquei exige-me mais uns segundos. Depois penso que sou de um país que conseguiu transformar linhas desenhadas num relvado numa discussão nacional e fico sem grande autoridade para estranhar as invenções dos outros.

No mar, as regatas de dhows levam a competição para as embarcações tradicionais à vela. Dalma é uma referência desse passado de pesca e pérolas que não costuma ter o mesmo espaço nas fotografias dos turistas. E há cavalos, há falcões. Vou descobrindo estas coisas e percebendo o pouco que sabia. Tinha uma última volta de Fórmula 1 na cabeça e estava a fazer dela um emirado inteiro.

Não vou fingir que, em poucos dias, já conheço isto tudo. Nem que troquei a praia por uma investigação de campo sobre camelos de competição. Continuo a gostar bastante da espreguiçadeira. Mas o desporto tem esta vantagem: dá-me sempre uma razão para espreitar mais qualquer coisa. Um nome português num plantel, uma vela no mar, uma prova que quero acompanhar quando regressar. Vim com uma ultrapassagem na memória. Já levo bastante mais. Espero que caiba na bagagem.

Pedro Ricardo Martins
Pedro Ricardo Martins