Magnífico 7

MAGNÍFICO PALMA

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MAGNÍFICO PALMA

Morreu Jorge Palma. E, aparentemente, o soco no estômago não foi só meu, foi de um país inteiro. Não foi um cantor de grandes hinos nem de concertos em estádios, mas embalou o país. Cantou a nossa vida como poucos. Guiou-nos ao piano e na sua voz. Motivou-nos e curou-nos nos momentos de euforia e de tristeza. Foi, é e será o Jorge Magnífico Palma.

Não são muitas as pessoas que levam seleções a cantar as suas músicas. Mas não ficou pela belíssima homenagem dos Heróis do Mar do andebol. Iluminados pela Estrela do Mar, vimos a união dos três grandes em publicações a lamentar a perda. Não são muitos os que uniram políticos, credos e desportos. O Palma foi a nossa banda sonora. Escreveu poemas e deu-nos melodias que ficam para lá da sua partida. Arrepiou-nos e guiou-nos às vitórias. Ajudou a curar as nossas derrotas. Jorge Palma conseguiu isso e unir um país a cantá-lo, deixando a promessa: "Enquanto houver estrada para andar, vamos continuar."

Nunca falei com Jorge Palma. Aliás, na infância tinha medo dele. No começo dos anos 80, o Palma foi meu vizinho na minha praceta de sempre na Damaia. Tinha um ar rebelde. As vizinhas mais velhas apontavam-lhe o estilo de vida indigente. “Não fales com ele”, aconselhavam-me em casa. Tocara no metro de Paris e Madrid. Tinha um ar estranho. Mas tudo me fascinava naquela figura. Acima de tudo, para uma criança nos arredores de Lisboa, foi a primeira rock star que vi ao vivo. Daquelas que apareciam na televisão, numa altura em que só havia dois canais da RTP. O outro famoso da minha infância foi o Vasco Granja, que passava desenhos animados checoslovacos intervalados com o Bugs Bunny, mas só me cruzei com ele quando fui para a Escola Preparatória e ele andava tranquilamente a passear o cão. Tal como ao Palma, nunca tive a ousadia de trocar uma palavra com ele. Porque não devemos incomodar os ídolos. Cresci a ouvir o Palma. Esteve lá sempre. Nos bons e nos maus momentos. Vi alguns concertos ao longo dos anos. Mas há um que me marcou. O concerto que mais me marcou em toda a minha vida.

A meio dos anos 90, já estudante universitário, fui a uma festa da Nova FCSH e o grande Jorge Palma dava um concerto. Longe dos momentos de ribalta e de reconhecimento nacional. Com o seu ar e estilo de vida meio vagabundo, devia estar numa certa travessia no deserto. Ainda hoje não acredito como aceitou um concerto naquelas condições. Mais icónico, só o concerto de Bryan Adams no Teatro D. João V, na Damaia, mas isso são contas de outra crónica. Ao mesmo tempo, aceitar dar um concerto no meio de um refeitório, sem palco. Apenas um piano e uma garrafa. Tudo lhe aumentou e cimentou a aura. Isso e o facto de terem sido mais de quatro horas de concerto. Que mito. Fiquei ainda mais fascinado pela figura. Nunca mais me esqueci. Quase que foi arrastado para fora do piano. E ainda esteve algum tempo com quem quisesse trocar um dedo de conversa. Mas eu segui o conselho lá de casa, de uns anos antes, e não falei com ele. Apesar de, entre os meus amigos, estar a Catarina. Entre as muitas músicas do Palma, “Os Olhos de Catarina” são uma das mais bonitas de sempre. E uma das melhores histórias que revelam bem quem era o Palma. Presença nalguns jantares de crescidos, a pequena Catarina recebeu do Jorge a melhor das prendas: uma música. Ao seu estilo, foi prometendo que ia entrar no álbum seguinte. Algo que só aconteceu 20 anos depois de ter feito e lhe dedicado a música. Durante 20 anos, aquela melodia, aquelas palavras só eram conhecidas pelo Jorge, o padrasto, a mãe e, claro, a própria Catarina. 20 anos depois, incluiu-a no álbum “Jorge Palma”.

E agora, pergunta o caro leitor, o que é que Jorge Palma tem a ver com uma crónica de desporto no site da Sport TV? Dúvida legítima, mas basta atentar, por exemplo, às reações e às letras das músicas do Palma. Está lá tudo. Nos “Os Olhos de Catarina” canta: “Tudo já fora previsto / Nos olhos de Catarina, o jogo de futebol”. Em “A Gente Vai Continuar”: “Quem ganhou, ganhou e usou-se disso / Quem perdeu há de ter mais cartas para dar”. Amigo Jorge, certeiro como um goleador nato. Fino recorte como um número 10. Com a tua partida, perdemos todos. A mais dura das derrotas. Mas depois do verão ainda cá andamos, e tu vais andar sempre. “Fechei os olhos e previ o que encontrei. E foi nesta viagem que percebi que não estou só”. Não estamos!


Pedro Ricardo Martins
Pedro Ricardo Martins