Federer, 6-4 e 6-4. Tsitsipas do outro lado da rede e o suíço com mais um título. O centésimo. Foi no Dubai, em março de 2019, e é uma das imagens que me acompanham nesta segunda parte da viagem. Há quem chegue às cidades com uma lista de restaurantes. Eu trago resultados antigos. Não é especialmente útil quando chega a hora de jantar, mas dá para ir ocupando a cabeça. E Federer, convenhamos, ocupa-a bastante melhor do que a discussão sobre onde estacionar.
Depois de Abu Dhabi, o Magnífico 7 chega ao Dubai. Continuo de férias, embora esta crónica possa ser usada como prova em contrário. O ténis é uma boa porta de entrada. Aquele triunfo foi o oitavo de Federer no torneio. Oitavo! Há jogadores que dariam uma carreira inteira por oito títulos e o homem tinha-os todos no mesmo sítio. Tsitsipas, que o tinha eliminado no Open da Austrália semanas antes, ficou a assistir à festa. O desporto tem destas delicadezas: num dia anunciam-te como o futuro, no outro o passado pede-te que segures no casaco enquanto vai buscar mais uma taça.
Mas deixemos a raquete. Há portugueses por aqui e um deles tem um apelido que, numa crónica desportiva, facilita bastante o título.
Rui Vitória está no Al Wasl. É curioso pensar no caminho entre o Vilafranquense e o Dubai. Pelo meio houve Fátima, Paços de Ferreira, Guimarães, Benfica e uma carreira que ganhou mundo. Nós habituámo-nos a vê-lo nos nossos bancos, nas conferências de imprensa, a responder às perguntas que fazemos todas as semanas. Depois, os treinadores saem de Portugal e vamos sabendo deles aos bocados. Uma contratação, um resultado, uma saída. Meses de trabalho resumidos a três notícias.
Agora que estou por cá, apetece-me olhar com mais atenção. Até porque falar de futebol no Golfo não pode ser sempre uma conversa sobre salários. Também se treina, também se perde e, suponho, também haverá quem ache que fazia melhor com aqueles jogadores. Essa espécie não precisa de adaptação ao clima.
No Al Wasl, Rui Vitória tem Pedro Malheiro, que vimos crescer no Boavista. Tem também Serginho, nascido em Portugal, internacional cabo-verdiano, que passou pelo Estoril e pela Oliveirense antes de seguir para a Dinamarca. Do frio dinamarquês para o calor do Dubai, pelo menos a mala teve de mudar.
Gosto de encontrar estes nomes. Fazem-me ir além do treinador conhecido e procurar o resto da equipa. Lembram-me que há muito futebol português a acontecer fora do espaço que lhe damos. Nem toda a gente sai para um colosso europeu. E sair desse caminho não significa, obrigatoriamente, ter escolhido o caminho errado.
José Morais está no Sharjah, já no emirado vizinho. Paulo Sousa passou pelo Shabab Al Ahli, no Dubai, de onde saiu em junho. Convém acertar nos tempos verbais e no mapa. Por vezes, falamos desta região como se fosse tudo a mesma coisa. Não é. Até para seguir os portugueses é preciso saber onde estamos.
Dalić sabe. O antigo selecionador croata regressou aos Emirados para dirigir a seleção, depois de ter treinado o Al Ain antes de levar a Croácia à final do Mundial de 2018. Primeiro esteve aqui. Só depois chegou àquela final. Um pormenor para guardar quando alguém disser que estes campeonatos servem apenas para acabar carreiras ou para fugir de escândalos familiares.
Entretanto, o Dubai também se meteu na Euroliga. A Coca-Cola Arena recebe basquetebol europeu e nós acompanhamos a competição na SPORT TV. A Geografia que se entenda com o calendário. No golfe, a Race to Dubai já nos habituou a esta relação. E há o ténis, o padel, as 24 Horas do Dubai. Para quem gosta de desporto motorizado, como eu, estas últimas merecem atenção. Mesmo de férias.
Os monolugares sem piloto humano ficam em Abu Dhabi, na A2RL. Não os vou trazer para o Dubai só porque me dão jeito neste parágrafo. Mas fiquei a pensar neles. Percebo o interesse da experiência. Ainda assim, custa-me imaginar uma corrida sem alguém dentro do carro a arriscar, a errar, a tentar outra vez.
Talvez por isso tenha começado com Federer. Cem títulos são uma estatística extraordinária. A vontade de ganhar o centésimo é que me interessa. Também procuro isso em Rui Vitória, em Malheiro, nos que vieram construir uma carreira por aqui. A história continua depois de deixarmos de os ver todas as semanas. E eu, que vim ao Dubai com tempo para outras coisas, já dei por mim a querer saber quando joga o Al Wasl.


