Não vou entrar em novelas sobre se devia continuar, se devia sair ou se fez bem ou mal ir embora. Não vou sequer falar de um atleta específico. Mas gostava de deixar uma pergunta e tentar encontrar respostas. O que leva Fernando Alonso, LeBron James ou Cristiano Ronaldo, com 40 e muitos anos, a renovarem contratos ou compromissos? O que move estes multicampeões? E será que sabem sair?
Dou estes três exemplos porque recentemente iniciaram, aos 40 e alguns anos, novos compromissos. Fernando Alonso renovou com a Aston Martin que, nesta altura, é a pior equipa da Fórmula 1 por causa do desastre do motor Honda. Renovou porque acredita que, na próxima época, o atraso nipónico vai ser resolvido e o melhor desenhador da F1 vai dar-lhe um carro para ganhar. LeBron James há muito que tem épocas para esquecer nos Lakers e vai agora para a super-equipa de Filadélfia. E na NBA o que nos diz a história? Quando há super-equipas, o tombo é sempre grande. Mas King James acredita que pode ser a cola e levar os 76ers ao título 43 anos depois. E claro, Cristiano Ronaldo. Desse sabemos a história toda. Falou com o presidente, falou com Jesus e, se contavam com ele, ele contava com a seleção. Estava para ajudar. E ia continuar a analisar o dia a dia. Mas, depois, foi o que se viu.
Podíamos juntar outros nomes a esta lista. Lewis Hamilton à procura do oitavo título na Ferrari. Mas aí há a questão do sonho de guiar pela mais famosa equipa da Fórmula 1. Aaron Rodgers que, aos 42 anos, renovou com os Jets. Mas na NFL títulos para quarentões é mato, não é assim, Sr. Tom Brady? Ou até mesmo Novak Djokovic, que só não entra nesta lista porque tem "apenas" 39 anos. Nem todos sabem, nem conseguem sair no topo.
Lembro-me apenas de dois casos notáveis de controlo emocional. O padrinho desta crónica, o Magnífico 7, Éric "Le King" Cantona. Aos 30 anos era o maior jogador da Premier League e do mundo (pelo menos para mim vai sê-lo sempre). E, em 1997, anunciou que ia jogar futebol de praia, acabadinho de vencer mais um campeonato inglês. Só não foi o maior da sua década porque a seleção francesa não queria nada com ele. E porque saiu precisamente antes de o United ter ganho a dimensão mundial com a conquista da Liga dos Campeões. Mas viu a geração que vinha aí. Os "Fergie Boys" ainda beberam dA sua majestosa presença. Mas saiu. Abriu caminho, por exemplo, ao aparecimento de um tal David Beckham, que herdou a sua "Magnífica Camisola 7".
Tive o privilégio de ver ao vivo a estreia de Éric Cantona pelo United. Na festa dos 50 anos de Eusébio. E o privilégio de ser o primeiro jornalista a entrevistá-lo após abandonar a carreira. Na Figueira da Foz, onde jogava o mundialito de futebol de praia pela França. Fez-me esperar 6 horas enquanto jogava futevolei com os brasileiros. Concedeu-me 3 perguntas e não podia falar sobre futebol de 11. As duas primeiras foram banalidades. Na última decidi arriscar: "Não sente saudades da relva?". Resposta imediata: "NO!". Virou-me as costas e soltou um "au revoir". Só não levantou a gola, mas como de véspera, na conferência de imprensa, tinha agredido um fotógrafo, fiquei feliz com a reação e com o "furo". Ou "furinho", se preferirem.
O outro caso de quem soube sair no auge foi Nico Rosberg. Em 2016, com 31 anos, impediu que Lewis Hamilton ganhasse o seu terceiro título consecutivo. E, caso não tivesse ganho nessa altura, o britânico teria sido campeão 7 vezes consecutivas. E teria ganho 8 títulos. Dois recordes absolutos na Fórmula 1 que terminariam, com dados, a eterna questão sobre quem terá sido o maior piloto de todos os tempos. Rosberg, a correr com a bandeira alemã, apesar de ser filho do finlandês campeão de 1982, Keke Rosberg, teve um duelo tal com o seu companheiro de equipa na Mercedes que, cinco dias depois de conquistar o título em Abu Dhabi, deu uma conferência de imprensa a despedir-se da Fórmula 1. E, ao contrário de outros, por exemplo Michael Schumacher, nunca mais voltou à competição. As justificações de Rosberg e Cantona são as mesmas. Chegaram ao topo! Missão cumprida. E adeus! Ou como canta o José Cid, "Addio, adieu, auf Wiedersehen, goodbye". Eu prefiro "Au revoir", por respeito ao grande Éric!
Isto é tudo muito bonito, mas continuamos a não responder à questão a que nos propusemos no começo da crónica. Porquê continuar? Porque é que LeBron, Alonso e Ronaldo querem continuar? Dinheiro não é certamente. São três dos desportistas mais bem pagos de sempre, há mais de 20 anos. Títulos? Ganharam tudo o que havia para ganhar, individual e coletivamente. A Ronaldo faltou "apenas" o Mundial. Mas já não o vai conseguir ganhar, pelo menos como jogador. Ou será que vai? (prometi que não ia falar especificamente sobre O CASO). Sede incansável de vencer? Viciados no treino e na competição? Excesso de protagonismo? Ou simplesmente um ego que os cega?
Não vou deixar o querido leitor sem uma resposta. É a minha opinião, vale o que vale. Aqui vai: Sinceramente, acho que é um bocadinho de tudo. Mas, nestes três casos, as doses de cada um dos elementos são bem diferentes. Mas aí, peço desculpa, já não arrisco entrar em detalhes da receita. Que isto não é cozinha de autor e não me meto em caldeiradas. (já basta a realidade)


