Magnífico 7

MAGNÍFICOS 7: JULGAMENTOS E OPINIÕES

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Se há coisa que as redes sociais potenciaram foi o julgamento. Rápido, pouco refletido, uma espécie de disparar primeiro e perguntar depois. Se no desporto, e no futebol em particular, esses filtros já eram quase inexistentes por parte de protagonistas e, principalmente, de adeptos, com as redes sociais esses filtros caíram totalmente. Todos têm um julgamento sobre tudo. Poucos têm uma opinião formada e sustentada. Parece estranho fazer este tipo de reflexão numa coluna de opinião, mas passo a explicar, com exemplos, os assuntos mais quentes do momento. Marco Silva explica o resto.

KAMINSKI – O Julgamento – Começo pelo extremo polaco, embalado pelas palavras de Marco Silva sobre Sudakov. Kaminski fez dois jogos de pré-época e foi titular nos dois primeiros jogos da temporada. No final do jogo na Suíça, foi um dos alvos da ira dos adeptos. E até de alguns comentadores que, primeiro o colocaram nos píncaros da lua, aquando da contratação, mas que, depois desse jogo, já o apontaram como um grande flop.

A Opinião – Kaminski custou 17 milhões de euros. Números que, no atual mercado, não parecem particularmente elevados, mas que para o campeonato português são, naturalmente, significativos. Titular na seleção polaca, chegou a uma realidade completamente diferente. Um futebol diferente, línguas e costumes diferentes. Um clube a “arder”, desesperado por resultados, e com apenas duas semanas de treinos e 100 minutos num particular, caiu como uma das novidades deste Benfica. No Colónia, o extremo fez, na época passada, 36 jogos, com participação em 10 golos (7 assistências e 3 golos) dos 49 que o clube marcou. Números interessantes para qualquer jogador num campeonato dos Big Five, ainda para mais numa equipa que luta pelo meio da tabela. Se olharmos para a seleção polaca, é titular desde o Mundial do Catar. E, já depois da explosão de Oskar Pietuszewski, o agora benfiquista manteve a titularidade. A assistência no jogo da segunda mão parece dar razão à razão.

PLANTEL DO SPORTING – O Julgamento – O Sporting investiu mais de 100 milhões de euros para colmatar saídas de jogadores históricos como Hjulmand, Trincão, Quenda ou Morita, para já. Talvez por isso, e pelos resultados dos jogos já realizados na pré-época, os adeptos estão entusiasmados, quase eufóricos. Goleadas ao Celtic e ao Estrasburgo. Reforços a marcar e a brilhar. E os adeptos radiantes nas redes sociais, em especial depois dos “desvios” de Zalazar e Ba ao rival Benfica.

A Opinião – Nos últimos 20 anos, o Sporting fez duas pré-épocas 100% vitoriosas. Uma na época 20/21, marcada pelo Covid e em que os leões se sagraram campeões nacionais. A outra foi em 2013/14. Leonardo Jardim era o treinador e também houve direito a uma revolução no plantel. Mas esta, em vez de ser baseada em contratações “milionárias”, foi assente na formação. William Carvalho, Cédric, André Martins, Adrien e Eric Dier foram figuras numa equipa que terminou em segundo lugar. Esta revolução de Rui Borges traz muitas caras novas. Novas realidades e, especialmente, uma nova sala de máquinas. O segredo do sucesso leonino terá de estar no renovado meio-campo. Por isso, o melhor é mesmo esperar para ver.

O ATAQUE DO FC PORTO – O Julgamento – Sem Samu até perto do fim do ano, e com as partidas de Moffi e Luuk de Jong, o FC Porto decidiu atacar a nova época com André Silva e Deniz Gül até ao regresso do espanhol. Para os adeptos e para alguns analistas, aparentemente, chega. O internacional português preenche o coração dos adeptos pelo seu portismo. O avançado turco, apesar do claro potencial, é visto como um jogador de futuro.

A Opinião – Se para consumo interno a opção André Silva até pode chegar para as primeiras despesas do FC Porto, para a Liga dos Campeões parece curto. Gül e André Silva fizeram juntos menos golos na época passada do que Samu só em meia temporada no Dragão. É verdade que o FC Porto não perdeu nenhuma grande figura do seu plantel. Mas, se quer atacar todas as frentes, se calhar André Villas-Boas terá de abrir os cordões à bolsa e dar a Farioli um ponta de lança que faça mais de 20 golos por época. O ano passado chegou… mas a aposta na Champions não vai ser, certamente, a mesma da Liga Europa do ano passado.

OS ÁUDIOS DE PROENÇA – O Julgamento – Desde que foram divulgados como uma bomba que adeptos e comentadores, especialmente os do Benfica, pediram a cabeça do presidente da Federação. Acusam Proença de várias coisas, entre elas de querer prejudicar o clube e de ter sido injusto para com os árbitros e o seu líder.

A Opinião – Não querendo detalhar o conteúdo dos áudios — apesar de Proença, em comunicado, não ter negado a sua veracidade, apenas o contexto e a legalidade da divulgação — haverá matéria criminal ou de quebra de confiança institucional para que o presidente da FPF perca o seu mandato? Parece-me mais um problema interno para Pedro Proença explicar, especialmente a José Fontelas Gomes, que até é seu vice-presidente, e aos árbitros. Por responder fica a questão: quem, e com que objetivos, recolheu e partilhou estes áudios dois anos depois? Talvez nunca saibamos. Não me parece que vá mexer grande coisa com as estruturas do futebol português.

JHON DURÁN – O Julgamento – Ainda não tinha assinado oficialmente e já metade dos adeptos lhe apontavam defeitos, até alguns de carácter, dizendo que seria um problema para o balneário. Davam como exemplo o facto de, quando jogava no Al Nassr, viver no Bahrein e ir de avião para os treinos diariamente. Relembrando as intempestivas saídas do Fenerbahçe, do Zenit e do Al Nassr. Mas depois o golo e a assistência no particular com o Belenenses já o colocam como o negócio do século para muitos dos críticos.

A Opinião – Parece indesmentível que Durán teve problemas por onde passou, mas vamos analisar o negócio por si mesmo. Custa 6,5 milhões de euros. E o Benfica, se não quiser pagar os 30 milhões acordados no final, pode ficar com o avançado por mais uma temporada por empréstimo. Duas épocas, 6,5 milhões de euros por um avançado internacional colombiano. Será que não vale o risco? Mas e deixar sair Ivanovic apenas por uma primeira boa imagem não é arriscar demasiado? A gestão da época passada do FC Porto desde a lesão de Samu pode deixar algumas pistas para os encarnados.

AS VENDAS DOS CONSAGRADOS DO SPORTING – O Julgamento – Assim que a CMVM foi notificada do valor da saída para o Al Ahli, logo um coro de adeptos se reuniu a queixar-se de que os 43 milhões de euros eram curtos. E que os 40 milhões da saída de Hjulmand para o At. Madrid também seriam curtos.

A Opinião – Francisco Trincão custou 21 milhões de euros ao Sporting. Mas, quando se despediu, deixou, para lá dos 50 milhões de dólares, 102 jogos, 37 golos e 28 assistências. Morten Hjulmand custou os mesmos 21 milhões. Deixou os 40 milhões e, para trás, 119 jogos, 8 golos marcados e 10 assistências. Três títulos nacionais, dois campeonatos e uma Taça. Foram ganhar muito mais do que ganhavam em Alvalade e o presidente do Sporting honrou a palavra, não cortando as pernas aos jogadores. Podia ter ganho mais? Podia. Mas teriam os jogadores melhores negócios?

FIFA VENDE O FUTEBOL – O Julgamento – O comportamento de Gianni Infantino enquanto presidente da FIFA deixa qualquer adepto purista do futebol de cabelos em pé. (Pior só Stefano Domenicali e a opinião que tem sobre os novos adeptos da Fórmula 1, que não querem saber de como os carros andam, apenas que andam e que trazem mais emoção. Mesmo que seja uma emoção falsificada.) A última ideia, que parece ter unido finalmente o futebol, pelo menos o europeu, é a de vender participações dos mundiais a privados. A união do futebol europeu é precisamente contra isto e ameaça com um boicote às competições da FIFA, que, por acaso, até são organizadas pelos dois países detentores dos troféus europeus: Espanha, campeã da Europa, e Portugal, vencedor da Liga das Nações.

A Opinião – Neste caso tenho de me render… estou com os julgadores. Opinião e julgamento rápido coincidem. Há limites!

MAGNÍFICOS 7: JULGAMENTOS E OPINIÕES
Pedro Ricardo Martins
Pedro Ricardo Martins