Magnífico 7

MAGNÍFICO ON TOUR – ONDE NASCEU O FUTEBOL

FutebolOpiniãoMurrayfield
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MAGNÍFICO ON TOUR – ONDE NASCEU O FUTEBOL

Costuma-se dizer que no futebol (e na televisão) está tudo inventado. Eu, como sou dado a invenções, decidi mergulhar nas origens do futebol e escrever sobre o local onde nasceu o mágico — e proibido por decreto — football. E viajar também pelo parente pobre das ilhas britânicas: a Irlanda. Mas essa "estória" fica para a semana. Começamos por ir às raízes mais profundas. Tipo Indiana Jones, mas, em vez do chicote, calcemos as chuteiras.

Reza a lenda, e a Wikipédia, que o futebol nasceu em Inglaterra. Mas isso, lamento informar, querido leitor, é mentira. Os ingleses o que fizeram, na Freemasons' Tavern, em Londres, foi compilar e passar a escrito uma série de regras que, na altura, unificaram o futebol. O jogo em si nasceu de forma natural. Literalmente das pedras, ou das barrigas dos animais que eram cheias de ar, tipo balões, onde graúdos, mais do que os pequenos, davam pontapés para tentarem chegar a um determinado local. Abandonaram o uso das mãos e deixaram isso para o râguebi e para o futebol gaélico. Os mais tecnicistas decidiram adornar aquilo que era muito natural: uma brincadeira para passar o tempo.

Mas foi no norte das ilhas britânicas que o jogo foi batizado e, ainda por cima, para o proibir. Começou bem, não começou? Jaime I da Escócia, assim que chegou do exílio inglês, em 1424, assinou um decreto em que proibia o jogo do “Fut Ball” e quem fosse apanhado a praticá-lo teria de pagar 4 dinheiros. O equivalente a dois dias de salário, quatro pães ou 10 litros de cerveja. Já percebeu o que arriscavam aqui os escoceses por dar uns pontapés numa bexiga de porco revestida a couro?

Se esse decreto acabou por batizar o jogo, já a bola mais antiga que nos chegou, e que está em exibição num museu escocês, data de meados do século seguinte. E o campo de “Fut Ball” mais velho de que há registo, mais ou menos com a mesma idade da bola, está situado em Anwoth, no sudoeste escocês, onde o paroquiano se queixava de que os homens passavam o sábado à tarde a praticar esse desporto que os desviava, imagine-se… do tiro com arco.

Também o jogo coletivo, como o conhecemos hoje, surgiu por causa dos escoceses. Foi o Queen's Park a primeira equipa a fazer algo impensável: passar a bola em vez de correr com ela até à baliza contrária de forma anárquica. Os mestres da tática, afinal, usam kilt.

Já que estamos no local onde nasceu o futebol, vamos passar para a modernidade. Seja bem-vindo à capital, Edimburgo. Terra do dérbi entre os vermelhos e os verdes e brancos às listas. E conhecemos o maior estádio do país. Com capacidade para mais de 65 mil espetadores, este é Murrayfield, que não é a casa do Hearts nem do Hibernian. Nem é sequer uma casa de futebol. Esta é a meca do râguebi escocês. Foi aqui, em 1974, que se registou a maior assistência da modalidade, num jogo entre a Escócia e o País de Gales: quase 105 mil pessoas, no mesmo local onde hoje cabem 67 mil. Em 1990, no Torneio das Cinco Nações, a Escócia fez um histórico Grand Slam ao vencer a Inglaterra por 13-10. No mesmo local onde, em 2021, na ressaca da COVID-19, a Escócia bateu a campeã do mundo, a África do Sul, num dos mais épicos test matches da história.

Mas, apesar de ser a meca do râguebi, Murrayfield também viveu momentos gloriosos de futebol. O Hearts, quando tem jogos de maior afluência, muda-se de Tynecastle para Murrayfield. Foi aqui que o Sporting de Braga ganhou para a Taça UEFA, em 2004, com um golo do agora comentador da Sport TV, João Tomás. Mas foi ali também que Ronaldinho Gaúcho e o Barcelona de Rijkaard fizeram um amigável de pré-época que, ainda hoje, é o jogo caseiro do Hearts com maior assistência: quase 60 mil espetadores. Mas o mais incrível foi Murrayfield ter sido a casa do Celtic para a Champions na temporada de 2014, pelo facto de os Jogos da Commonwealth estarem a decorrer em Parkhead.

Apesar de este ser um palco cheio de história para o desporto mundial, e de grande significado para a Escócia, não é o mais emblemático do país. Enquanto os escoceses jogavam futebol e râguebi antes de o futebol e o râguebi existirem, a 80 quilómetros de Edimburgo, noutro local que é uma verdadeira meca do desporto mundial, St. Andrews, nascia o golfe, onde é jogado há 600 anos. Para quem joga, é um sonho dar uma volta de 18 buracos ao mítico campo. Para um adepto do desporto, ver um The Open em St. Andrews é o mesmo que assistir a uma final de um Mundial, a um Grande Prémio de Fórmula 1 do Mónaco ou de MotoGP em Jerez. É como ir ao Maracanã, a San Siro, à Allianz Arena de Munique ou a Wembley em dia de jogo. Ir a um Rali Dakar ou a uns Jogos Olímpicos.

Desta lista, e não querendo puxar dos galões, a este vosso amigo só falta um. Mas ainda não perdi a esperança de um dia cumprir esse sonho que envolve ver uma tocha a arder num estádio, e que nada tem a ver com movimentos ultra. Para a semana, cumpro outro. E vocês a ler. Da mania das grandezas, atravessamos o Canal do Norte e vamos olhar para os pequeninos. Serão os irlandeses o parente pobre das Ilhas Britânicas? Claro que não. Se não acredita, venha daí mergulhar na vibrante Dublin, onde provo que os irlandeses são os maiores… do Hurling!!!

Pedro Ricardo Martins
Pedro Ricardo Martins