No caso do nosso espanhol, Roberto Martinez, em bom português: “não sou supersticioso, mas acredito muito em numerologia”. Ora se ele acredita, se o engenheiro acreditava, se Scolari tinha o professor Getz, se o José Torres pedia para o deixarem sonhar e se o Manuel da Luz Afonso garantia que não ia em turismo para o Mundial quem sou eu para discordar? A única certeza que tenho, e por experiência própria, da única fé que Renato Veiga, João Neves, Nuno Mendes, Chico Conceição, Tomás Araújo e Gonçalo Inácio se recordam é a do engenheiro em 2016. Não sei se repararam… mas são 6! Um deles até se sente arrepiado.
É verdade que o arrepio de Renato Veiga tem a ver com a primeira chamada à seleção. Mas eu garanto que o primeiro Mundial de que me recordo é o de 1982. Tinha na altura quase 6 anos. Lembro-me obviamente do Naranjito, a mascote que tinha umas aventuras em desenhos animados que antecediam os jogos. E do infame Itália X Brasil em que a melhor seleção do mundo que tinha Sócrates, Zico e Falcão perdia vergada a Paolo Rossi e às defesas de Zoff. A Squadra Azzurra qualificava-se depois de três empates com Polónia, Peru e Camarões. Festejei o hattrick de “Pablito” na cara dos meus, muito irritados, tios e na verdade nem sei bem porquê. Tragédia tal para eles que até mandaram o Estádio Sarriá abaixo. Mas só 4 anos mais tarde recordo-me de ver todos os jogos que então davam na TV. No México, com o meu ídolo Carlão a dar-me as maiores alegrias futebolísticas que tive até então. O golo de Estugarda e a vitória sobre a Inglaterra de Shilton e Lineker. 20 anos depois Portugal regressava a um Mundial. E eu que ainda não tinha chegado aos dois dígitos de idade podia ficar acordado de madrugada para ver a seleção nacional com o resto da família. Só por isso o Mundial já era mágico.
Poderá por esta altura estar a pensar, mas e então 66? Aí, em plena seca de presenças nacionais era um jovem estagiário e tive o privilégio de entrevistar e privar com praticamente todos os Magriços. Estávamos em vésperas do França’98, de onde um tal de Marc Batta nos tirava o sonho de um regresso a um Mundial. Serviu de consolo conhecer personagens míticas como Germano, Hilário, Coluna, Vicente, José Augusto, o Rei Eusébio, o debilitado José Torres e o mestre António Simões. Repeti, já para a Sport TV, essa epopeia no meu primeiro Reportv semanas antes do regresso efémero a um Mundial, em 2002. E chegamos a 2006. O sonho de um jovem repórter começava no estágio de pré-temporada em Évora e só acabaria em Berlim depois da cabeçada de Zidane em Materazzi. Pelo meio mais de 10 mil quilómetros percorridos nas estradas da Alemanha atrás dos adversários de Portugal. Angola, Irão e México foram passados com leveza. Seguiu-se a “Batalha de Nuremberga”, os penáltis, outra vez, contra a Inglaterra, e, Gelsenkirchen e ver homens feitos a chorar baba e ranho, por estarmos outra vez nas meias-finais de um Mundial, 40 anos depois dos Magriços. O sonho terminava no penálti de Ricardo Carvalho e no golo de Zidane. Mas para sempre terei Celle, Leipzig, Hamlin, Göttingen, Friedrichshafen, Friburgo, Baden-Baden, Estugarda e Berlim no meu imaginário. Prometo numa próxima crónica contar mais “estórias” desses mágicos 2 meses. A razão, e o porquê, de alguém se tornar jornalista. Mas a glória, essa, só chegou 10 anos depois. O tão sonhado título. O Stade de France. O ganhar à França. Em França. O nosso carrasco de sempre, Platini, Zidane e Batta estavam lá encarnados naquelas mariposas. O pontapé de Eder. Os empates na fase de grupos. Os prolongamentos. O sofrimento. E como sofremos. Como festejámos. Como dizia o Pastel do Bairro Alto e o Renato Veiga: “Estou arrepiado!”
Mas de arrepios passados está o inferno cheio. As vitrines enchem-se é de troféus. Taças. E principalmente de memórias inesquecíveis. À trend das redes sociais: Qual o Mundial da tua vida? A resposta parece mais ou menos óbvia. Foi num ano com terminação 6? Apesar das cobras no centro de treinos da Suíça. Dos relvados onde a bola não salta. Das previstas interrupções por causa do mau tempo. Do tratamento e dificuldades à entrada nos Estados Unidos. Os prémios da paz da FIFA em tempos de guerra. Apesar de tudo isto e até do preço de bilhetes e da falta de cromos, o Mundial das nossas vidas. Esse, será sempre o próximo!


