A determinada altura da nossa vida, tivemos de passar por mudanças. Todas elas comportam dificuldades, umas mais simples e apenas de habituação, como trocar de carro, deixar de fumar ou mudar de cabeleireiro. Outras mais dúbias, como trocar de emprego ou mudar hábitos alimentares, em que depende sempre se é por vontade própria ou se são impostas pelas circunstâncias. E outras ainda que trazem sempre uma carga dolorosa, que arranca um bocadinho de nós, como trocar de casa ou dar outro rumo à nossa vida, mesmo que seja por nossa vontade. Há sempre algo que fica para trás. Em vésperas de fecho de mercado, olhamos para algumas mudanças, umas por circunstância do negócio, outras por vontade dos clubes, outras ainda dos jogadores ou mesmo de ambos. Depois, há aquelas que simplesmente aconteceram porque sim. A crónica desta semana é dedicada às mudanças!
UM JOGADOR PEDIU PARA SAIR
Escrevo rodeado de caixotes. Com a vida no limbo entre duas casas, imagino o que deve ser a vida de um profissional de futebol. Fazer isto quase anualmente requer um nível para o qual, sinceramente, não estou preparado. Faço o exercício de me colocar no lugar de treinadores e jogadores e, nesta leva, arrumo em categorias as mudanças do futebol português.
SURPREENDENTES
Estas são essencialmente de treinadores. Começam a nova temporada, escolhem alguns reforços, deitam-se a pensar como enfrentar o Estoril, na Amoreira, e acordam a ter de visitar o Marselha, no Velódromo. Foi o que aconteceu a Hugo Oliveira, que deixou o Famalicão para treinar o Estrasburgo. Mas o mesmo se aplica a Eddie Howe. Começa a temporada no Newcastle e, a um mês do arranque da Premier League, decide que estava na altura de ir embora. Num e noutro caso, são oportunidades para treinadores que estavam mais ou menos exilados. Carlos Carvalhal a comentar o Mundial na Sport TV e Matthias Jaissle na Arábia Saudita. São assim como os objetos de que nos esquecemos por cima do guarda-fatos.
PENSADAS
Neste caso, já podemos colocar alguns jogadores. Pep Guardiola ou Bernardo Silva, ao deixarem a parte azul de Manchester, por exemplo, permitiram despedidas emocionantes de parte a parte. Tudo acaba e, mesmo que seja por vontade de todos, há sempre um bocadinho, principalmente de quem parte, que fica lá. Um bocadinho como as paredes da casa.
JOGADAS CEREBRAIS
Se há pessoa que não dá ponto sem nó, é José Mourinho. Tudo é estudado. Cada palavra, cada ação. Se na Fórmula 1 tivemos, há umas temporadas, xadrez a 300 à hora entre Verstappen e Leclerc, Mourinho faz do quotidiano o seu tabuleiro preferido. Mesmo que nunca o venha a admitir, mesmo até que nem o tenha feito de forma absolutamente consciente, o regresso do “El Especial” ao Bernabéu começou a escrever-se com os três jogos consecutivos na Champions, no início do ano, entre Benfica e Real Madrid. As declarações de amor ao clube blanco, mesmo com vitórias de goleada, com o caso Prestianni/Vini Jr., com Mbappé pelo meio... mesmo com tudo isso, a massa associativa Merengue, no final da temporada, quase exigia a Florentino que contratasse Mourinho. Mesmo que este tenha terminado a temporada na 3.ª posição de um campeonato em que não foi derrotado em nenhum jogo. Mesmo depois de garantir que ficava, estava na cara que ia. E foi. Neste limbo, o Benfica e também Marco Silva, que deixou a estabilidade sustentada do Fulham, estiveram em suspenso. À espera das eleições do Real Madrid e do pagamento da cláusula. Neste fecho de ciclo perfeito, Álvaro Arbeloa, que saiu do Real Madrid para abrir as portas do regresso de Mourinho à “Casa Blanca”, seguiu para Craven Cottage para substituir Marco Silva. É como aquela situação de contratar uma empresa de mudanças. Escolher a empresa, o dia, a hora e rezar para que haja elevadores (e que caibam os sofás).
FIM DA LINHA
Neste grupo podemos colocar os casos de António Silva, no Benfica, Morten Hjulmand, no Sporting, e Rodrigo Mora, no FC Porto. Três figuras dos clubes, mas que, ou por vontade própria ou pelas circunstâncias, decidiram que não conseguiam continuar. Hjulmand admitiu mesmo que não tinha mais nada para ganhar no Sporting e precisava de mudar. António e Rodrigo, com espaço limitado nos plantéis, precisavam de mudar de ares para respirarem o futebol que sentem ter para dar. Podiam ter rendido mais alguns milhões. Não sendo negócios incríveis, são muito positivos do ponto de vista financeiro. Clubes e jogadores felizes. Só os adeptos suspiram pela ausência destes craques em campo. E, aos primeiros desaires ou exibições menos conseguidas, aparecem as memórias mais intensas. São aqueles objetos de que ainda gostamos, mas, como têm valor e não temos espaço na casa nova, temos de abrir mão deles, vendendo-os num site.
FORÇADAS
Ivanovic é provavelmente o caso mais relevante. Com a contratação de Durán pelo Benfica, o croata perdeu espaço. Se já não tinha muito, com Pavlidis em forma, piorou. Com o colombiano a querer renascer, o trabalhador, mas pouco goleador, Ivanovic foi empurrado para a porta de saída. A valorização na Champions e no vice-campeão francês suscitou um empréstimo para ganhar montra no Lens. No mesmo patamar, mas com um investimento muito menor, há o caso de Mangas, que até deu lucro ao Sporting. Claramente aquele móvel que até foi caro, mas que não cabe na sala ou no quarto. Cedemo-lo a alguém na esperança de que, no futuro, possamos encontrar um espaço para ele, ou que o consigamos vender por ficar bem na sala do amigo a quem o emprestámos.
NEGÓCIO DE OCASIÃO
Trincão e Dedić são os grandes exemplos. Os milhões do fundo saudita desviaram o melhor jogador do Sporting das últimas temporadas e o lateral bósnio. Um para o Al Ahly, por quase 44 milhões de euros; outro para o Newcastle, por 35. Perdem as equipas, claramente, em qualidade futebolística. Ganham as finanças. A ocasião faz… o negócio. É claramente aquela mudança de casa obrigada pela venda da nossa antiga habitação por uma proposta irrecusável.
ESTADO CIVIL
Há aquele chavão jornalístico: quando um jogador se casa, diz-se e escreve-se que "muda de clube". Cristiano Ronaldo conseguiu fazê-lo à grande e, igualmente, de forma intimista. Até nisso foi um campeão. À grande, porque não faltou nada à cerimónia registada por uma das mais famosas revistas de moda do mundo; e especialmente intimista porque só estava presente quem realmente interessa na vida do casal: os 5 filhos. No fundo, é o que interessa nas mudanças. Como diz a música dos Edward Sharpe & The Magnetic Zeros: "Home is wherever I'm with you!".


