Magnífico 7

MAGNÍFICA INTELIGÊNCIA ENGANADORA

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MAGNÍFICA INTELIGÊNCIA ENGANADORA

Caro leitor, tenho uma confissão a fazer-lhe: foi enganado. Não há outra forma de lhe colocar as coisas. As duas últimas crónicas não foram escritas por mim. Ou melhor, foram escritas a meu pedido. Usando as minhas palavras. Mas não fui eu que as escrevi. Não pense que, por terem sido crónicas de viagem, e em férias, pedi a alguém para fazer o trabalho por mim. E eu com mais tempo de espreguiçadeira, praia e piscina. Na verdade, deu-me tanto ou mais trabalho para que nenhum leitor se sentisse defraudado com esta crónica, que já vai na 20.ª semana consecutiva.

O que aconteceu, na realidade, não foi bem um logro, ou um ataque de falta de inspiração ou de "preguicite" aguda. O caro leitor foi alvo de uma experiência. E, portanto, não se sinta enganado. Sinta-se antes uma cobaia. Passo a explicar. Há três semanas, a Sport TV deu-me uma prenda que só quem cá trabalha tem o privilégio de, de vez em quando, receber. Fiz parte de um grupo que teve um curso sobre inteligência artificial. Três dias na Nova SBE e um professor desafiador. O Ricardo Parreira é daquelas pessoas capazes de motivar um exército. De nos abrir horizontes e mostrar potenciais saídas numa sala escura. É um daqueles comunicadores de excelência, ao ponto de ter sido o escolhido para conduzir a conversa com Barack Obama, quando o ex-presidente norte-americano esteve em Portugal. E o desafio que nos propôs foi simples. Usar o que tínhamos aprendido no dia a dia. E, como ia entrar de férias logo após o curso, a minha forma de o fazer era com o trabalho para casa que levei. As crónicas no site da Sport TV.

Confissão feita. Crónicas escritas, prompt atrás de prompt. Até as fotografias e os posts. E nem uma alminha suspeitou de nada. Até os mais fiéis leitores acreditaram que tinha sido eu a juntar todas as palavras. Construir todas as frases. E até o revisor da inteligência artificial conseguimos enganar. Eu e a minha nova amiga. Não me orgulho de enganar o meu querido leitor. Mas tudo o que lá está é verdade. Podia ter sido eu a escrever sobre o desporto nos Emirados Árabes Unidos. Subscrevo palavra por palavra. Frase por frase. Mas, apesar disso, não fui eu que as escrevi. Foi uma máquina a fazer-se passar por mim. Mas este processo abre caminho para as aplicações da inteligência artificial no desporto. Já há agentes que ajudam a planificar o treino. A inteligência artificial analisa dados como ninguém e com uma rapidez sem par. Tudo prompt, mas há uma coisa que a inteligência artificial ainda não consegue fazer e acho que nunca o fará. Marcar um golo como Ronaldo. Fazer uma finta como Messi. Um passe como Modrić. Um corte com a classe de Maldini. Ou uma defesa impossível como Buffon. E muito menos levantar a gola como Eric Cantona. O génio humano, a decisão impensável e até a sorte. Nada disso a inteligência artificial vai conseguir copiar. Talvez o azar e o culpar os árbitros. Isso é fácil de replicar. Esta semana, tivemos uma equipa a justificar derrotas com os árbitros. E, horas depois, a despedir o treinador, e a culpa foi da falta de sorte.



A sorte dá muito trabalho. O azar e os árbitros acontecem… Uma conversa que normalmente serve para colocar água na fervura dos adeptos. Explicações simples para problemas complexos, porque os dirigentes não têm os fãs dos seus clubes em grande conta e replicam todas as semanas discursos mais ou menos básicos. Mesmo binários, como as máquinas. Ou azar, ou os árbitros. E, por incrível que pareça, este discurso até resulta habitualmente. Pelo menos no momento, porque a memória é tolhida por outra coisa que nenhuma máquina alguma vez terá: a paixão!

A paixão dos adeptos nasce claramente do lado humano do desporto. O erro cria a incerteza e, até nos mais potencialmente robóticos dos desportos, como as corridas ou o xadrez, tudo demasiado certinho tira o interesse. E acho que foi isso que faltou às minhas últimas crónicas. A imperfeição e a paixão. Mesmo pedindo um texto apaixonado, nenhum código binário vai substituir o prazer que é pensar e escrever estas crónicas. E, por isso, deixo-lhe esta promessa. Enquanto o Magnífico 7 existir, nunca mais voltarei a recorrer à inteligência artificial para o escrever. E simplesmente porque era tudo demasiado perfeito e quem me conhece sabe perfeitamente que, se há coisa que não sou, é isso. Deixem a perfeição para as máquinas, mas, a seguir, tente apaixonar-se por um pontapé de bicicleta do C-3PO em jeito de chapéu ao guarda-redes R2-D2… anulado pelo VAR WALL-E.

Créditos foto: Football Manager 2027

Pedro Ricardo Martins
Pedro Ricardo Martins