Magnífico 7

MAGNÍFICA INGRATIDÃO

Opinião
Leitura: 4 min
MAGNÍFICA INGRATIDÃO

“No futebol não há memória, nem gratidão”. “Os resultados é que mandam”. Pois bem, vamos lá dissecar estes mantras. Alguém me pode explicar porque é que 156 dias depois de vencer a Taça de Portugal em pleno play-off de subida à I Liga; 40 dias depois de ganhar para a Liga Europa na Noruega; 1 dia depois de vencer para o campeonato entre jogos da UEFA e sem guarda-redes titular, nem suplente; um clube despede o treinador à oitava jornada com a equipa a 6 pontos da zona de play-off? Naturalmente que o comunicado diz que foi por mútuo acordo. Mas, agora ouçam as últimas palavras de Luís Tralhão como treinador do Torreense e conseguem encontrar alguma pista que o técnico está de partida?



Cada vez tenho mais dificuldades em entender o futebol moderno. Das SuperSADs, dos diretores-gerais que são transferidos tipo jogadores da bola, dos diretores desportivos milagreiros que se vendem como estrelas de Hollywood, e da famosa estrutura. Talvez porque tenha crescido nos anos 80/90 onde havia um presidente, um chefe de departamento de futebol e um treinador. Depois vieram as SADs e com elas a famosa estrutura que ganha campeonatos. Mas que quando não funciona despedem-se treinadores, mandam meia equipa embora, mas eles continuam nos cargos até entrar um novo presidente, com a sua respetiva equipa, ou mais recentemente serem transferidos, com cláusula e tudo, para outros mercados. Para as big-five, mas também para as Arábias, Brasil, Marrocos, etc., etc. Não estou a falar de nenhum caso em particular e nem sequer exclusivamente de Portugal. As redes sociais trouxeram novos heróis ao desporto, o espanhol Monchi foi assim o primeiro caso que me lembro sempre que esbarro com este tipo de notícias. Mas se antigamente as decisões eram tomadas por quem manda, certas, ou erradas, hoje é a estrutura. Lembro-me de algumas absolutamente históricas. Curiosamente duas com o mesmo protagonista e com resultados antagónicos. Toni. Campeão uma primeira vez, o Benfica decidiu fazer regressar Sven-Göran Eriksson e João Santos colocou o treinador como seu adjunto. A outra foi, depois do Benfica ter sido campeão de uma forma absolutamente épica em Alvalade, depois dos famosos 6-3, Manuel Damásio prescindiu de Toni e contratou Artur Jorge. Figura como jogador do clube, mas que como treinador fez carreira no FC Porto onde conquistou a Taça dos Campeões. Toni também tinha duas finais, uma como adjunto de Eriksson, a outra perdida como principal. Curiosamente voltou ao clube depois de mais uma daquelas decisões de gestão incompreensíveis, agora de Manuel Vilarinho, aquando da primeira saída de José Mourinho da Luz. Um regresso no mínimo infeliz.


Mas para não acharem que só o Benfica tomou decisões questionáveis nesses períodos do “presidente é que manda”, vou dar-vos outros exemplos. No Sporting, o famoso despedimento de Bobby Robson, quando a equipa em pleno jejum de campeonatos seguia na frente do campeonato, mas foi despedido, após a eliminação das provas da UEFA pelo Casino Salzburgo, em pleno avião de regresso. Ou ainda outra, com José Mourinho contratado, a direção do futebol a cargo de Luís Duque, decidiu deixar cair o contrato porque a claque tinha mostrado desagrado com a contratação do antigo adjunto de Robson no clube, logo após a saída “not yet special one” da Luz. Mas até o apelidado “Presidente dos Presidentes” tomou medidas inacreditáveis à luz dos factos atuais. Antes da chegada de Mourinho às Antas, Pinto da Costa escolheu Octávio Machado para treinador principal para substituir Fernando Santos. Uma decisão que ficou marcada pelo deixar o clube na quinta posição e um conflito com o capitão Jorge Costa que levou “O Bicho” a deixar o clube de sempre. Mas a escolha do “Palmelão” até teve sucesso se comparado com o sucessor de Mourinho, Luigi Del Neri. O italiano só fez a pré-época e foi despedido com recurso ao tempo de experimentação. Mais recentemente as escolhas de Lopetegui, Peseiro, José Couceiro ou Paulo Fonseca também não deixaram grandes memórias. Pelo menos positivas aos adeptos azuis e brancos. Erros todos cometem, é certo. Mas em todos estes casos conseguimos apontar o responsável pela decisão.


Mas neste caso específico de Luís Tralhão entramos no futebol moderno. Dos comunicados estéreis, sem paternidade assumida da decisão e principalmente sem coração. Das duas uma, ou o Torreense queria estar nesta altura em primeiro lugar da II Liga e da Liga Europa só com vitórias. Ou depois da reconstrução de um plantel feito a pensar em campeonato e competições europeias prescindir de um treinador, ou na melhor das hipóteses, acordar que o técnico saia do clube é para “o meu futebol” absolutamente incompreensível. Ironia das ironias, acontece depois do treinador ganhar um jogo na ressaca europeia. E saber que ia defrontar o terceiro grande no espaço de seis meses num jogo de mata-mata. Depois da glória contra o Sporting, da excelente réplica ao FC Porto na Supertaça, a possibilidade de defender o título conquistado no Jamor perante o Benfica. Mas nada disso vai acontecer devido a uma magnífica ingratidão do futebol moderno.

Pedro Ricardo Martins
Pedro Ricardo Martins