Magnífico 7

7 MAGNÍFICOS DESEJOS

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Começa esta sexta-feira mais uma edição da Liga Portuguesa. A época praticamente colou com a anterior e, por isso, as férias são uma espécie de Natal: é quando um homem quiser. Mas a seguir ao Natal, como se sabe, vem o Ano Novo. E no Ano Novo pedimos desejos. Como tal, senhor leitor, agarre no copo de champanhe e nas passas e avancemos para 7 magníficos desejos para esta época de futebol nacional. À meia-noite desta sexta-feira futebolística — o mesmo é dizer às 12 badaladas das 20h15 —, quando Miguel Fonseca apitar para o começo do Estoril-Famalicão, seja no António Coimbra da Mota, seja a ver a Sport.TV1, erga a taça e peça os desejos enquanto come passas ao segundo. Como sou seu amigo, são só 7. (Para resultar, tem de vestir uma peça de roupa azul, vermelha, verde, amarela, preta, branca e roxa; assim cobre os clubes todos).

1. GOLOS, GOLOS E MAIS GOLOS
Aproveito o destaque que já deve ter visto nas emissões da Sport.TV+ quando o meu companheiro de mesa, Tiago Peres Costa, está a editar. Por favor, pelo amor de todas as santinhas, treinadores portugueses, metam os olhos no último Mundial. “Deixem-se de ferrolhos. A malta quer é gol(h)os”, (o H é propositado para a rima fácil). Vamos aos números, que eu não sou cá de “achismos”. Por incrível que pareça, as médias de golos são das mais altas dos últimos 50 anos, tendo a temporada 23/24 o registo mais elevado de sempre, com uns incríveis 2,87 golos por jogo. Tendo em conta que os treinadores, especialmente os dos grandes, se queixam da falta de tempo útil de jogo, não está nada mau.

Também os empates a zero representaram apenas 5,8% dos jogos da última época, quando nos anos 90 essa média ultrapassava os 10%. Ou seja, por jornada, era certinho e direitinho que havia um nulo. Já o fosso entre o primeiro e o último também tem vindo a cair. Chegámos a ter 55 pontos de diferença, outra vez nos anos 90, quando a vitória dava apenas 2 pontos. Hoje, a diferença entre o campeão e o último foi de 64 pontos, mas com as vitórias a valerem 3 pontos. Por isso, é continuar o bom trabalho. Golos e equilíbrio é o que se quer.


2. PAREM DE FALAR DOS ÁRBITROS
Por favor, parem! Especialmente os dirigentes, as máquinas de comunicação dos clubes e, por contágio, os adeptos. Um jogo de futebol é tão giro, emocionante. Como vimos, até tem tido mais golos e menos 0-0. Com erros dos treinadores, dos jogadores, dos jornalistas, de toda a gente e até dos adeptos — basta ver que o Benfica começa o campeonato à porta fechada por causa deles. Mas depois andamos meses a fio, anos até, a relembrar erros dos árbitros. Daquele árbitro. Porque realmente é o “e se” mais fácil de entrar na cabeça dos adeptos.

Esta conversa não faz bem a ninguém. Os árbitros erram? Erram. O VAR erra? Erra. Todos erramos na vida. Mas coloquem-se na pele dos árbitros. Se vocês tivessem, por cada vez que cometem um erro no vosso emprego (até mesmo quando acertam), milhares de pessoas a berrar-vos aos ouvidos e a chamar-vos nomes... Com uma agressividade que não têm em mais nenhum outro momento da vida. Tentem fazer bem o vosso trabalho, seja ele qual for. Tentem! Pois bem, é isto que os árbitros vivem semana após semana, dia após dia, hora após hora. Não deve ser fácil, digo eu.


3. UMA VITÓRIA PORTUGUESA NUMA COMPETIÇÃO DA UEFA
A campanha do SC Braga na Liga Europa e a do Sporting na Champions, o ano passado, deixaram-nos com água na boca para o que aí vem. A final de Dublin já foi há 15 anos. E até mesmo presenças em finais já lá vão 12 anos. Se olharmos para a Champions, Gelsenkirchen já foi há 26. Se não há dúvidas de que SC Braga e Benfica, se chegarem à fase de Liga, são candidatos à conquista da Conferência e da Liga Europa, já para FC Porto e Sporting parece mais um sonho. Mas pedir não custa e, por isso, cá vai disto…

Uma final europeia com equipas portuguesas é tão especial que, desde que me lembro de ser gente, lembro-me de todas. A primeira final da UEFA de que recordo é a do Benfica contra o Anderlecht. Mas também o FC Porto-Juventus em Basileia, as duas finais do Prater, com Estugarda pelo meio e, já neste século, ver FC Porto, Benfica, Sporting e SC Braga em finais de todas as provas da UEFA foi sempre incrível e memorável. Se não for pedir muito, venham de lá essas finais, por favor! E, já que é para pedir, que venham os canecos também!


4. DEIXEM FALAR OS JOGADORES
A Liga Portuguesa gera craques de milhões, mas confesso que, se não fossem os flash interviews no final dos jogos ou nos pré-jogos da UEFA, havia jogadores aos quais nem conhecíamos a voz. Confesso que me faz um pouco de confusão: os clubes têm ativos de milhões entre mãos e, em vez de os mostrarem, de lhes darem palco, de os mostrarem ao mundo, em Portugal são escondidos e ficam de mordaça na boca. Os jogadores só dão entrevistas em ocasiões muito especiais, normalmente no fim de uma época de sucesso, e nem nos canais do clube se fazem ouvir.

Estes silêncios são prolongados também aos clubes de divisões secundárias. Longe vão os tempos em que havia dezenas de revistas nacionais e internacionais que apaixonavam os miúdos. No meu caso, nunca tinha visto um jogo de Pierre Littbarski, mas, por causa da Onze Mondial ou da Bravo, este foi o meu primeiro ídolo futebolístico. E, por causa dessas publicações ou da nossa Foot, apaixonei-me pelo jogo. Hoje, até as redes sociais dos jogadores são altamente controladas, e desafio o leitor a ver se consegue encontrar nelas algum jogador a falar, a não ser em mensagens de apresentação ou despedida dos clubes, que se perdem em stories ou quando mudam de ares.


5. DEIXEM FALAR OS ÁRBITROS
Só há um agente desportivo de quem se desconhece mais a forma como fala do que um jogador de futebol: o árbitro! E, no caso destes, não só não podem falar, como são punidos se o fizerem. Tudo em nome, claro, do seu próprio bem. Felizmente, agora, segundo as novas regras, têm de explicar ao estádio inteiro a decisão. Mas, sinceramente, se tivessem oportunidade de, a frio, depois de analisarem o trabalho, explicarem por que tomaram aquela decisão naquele momento, o que sentiram, seria tão melhor.

Quem fala de forma aberta só demonstra que não tem agendas escondidas ou que, quando erra, é apenas isso: um erro. Infelizmente, também neste setor, só quando penduram o apito e passam a dirigentes é que os árbitros ganham voz. E até nem falam mal; basta lembrar que o presidente da Federação Portuguesa de Futebol foi árbitro, ou que o nosso Artur Soares Dias é um belíssimo e interessante comentador. Também sei que, em Portugal, dar voz aos árbitros é uma utopia. Mas, mais uma vez, pedir não custa.


6. DEIXEM CALAR OS DIRIGENTES
Na verdade, não quero calar ninguém. Mas, agora que já tenho a sua atenção, queria deixar esta reflexão: não acha curioso que reconheçamos mais rapidamente a voz de presidentes, vice-presidentes, diretores desportivos, diretores-gerais e secretários-técnicos dos clubes profissionais em Portugal do que as das estrelas das respetivas equipas? Alguém consegue explicar este fenómeno?

Só os treinadores falam de forma recorrente e normal, e acredito que só porque é regulamentar. Quanto aos dirigentes, gostava de ouvir mais sobre a estratégia que os clubes têm. A forma de planear o futuro e olhar para o desporto, como Frederico Varandas fez para explicar as saídas de jogadores importantes no Sporting.


7. DAR MÉRITO A QUEM GANHA
Por último, isto até pode parecer estranho, mas gostava mesmo que em Portugal, em vez de se arranjarem desculpas para as derrotas, se desse o mérito a quem ganha. Sejam campeonatos, sejam taças, seja apenas um jogo. É raro, tão raro, ouvir da boca de quem perde: “a Equipa X foi melhor” ou “a Equipa Y ganhou com mérito”. Parece básico e até é uma forma de tentar melhorar.

Se, a quente, ainda dou de barato que isso possa não acontecer, já passados dias, semanas ou anos, dizer que “perdemos por causa do árbitro, do antijogo, da pressão, do diabo a quatro…” parece estranho. Mas a verdade é que no futebol, e em Portugal em especial, ano após ano, esbraceja-se por isso. Um futebol estranho, mas que adoramos.


Por isso, venha a bola, que essa muda pouco. Espero que, em breve, tenhamos por cá — tal como aconteceu no Mundial — os batimentos cardíacos da bola! Porque, ao fim de todos estes anos, ela foi a única que não mudou. Continua redonda, mas agora, finalmente, sabemos por quem bate o seu coração.

7 MAGNÍFICOS DESEJOS
Pedro Ricardo Martins
Pedro Ricardo Martins