HOMENS & MÁQUINAS

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Agostini e a MV Agusta 500 3C

Não haverá iconografia mais forte na história centenária do motociclismo desportivo do que a imagem de Giacomo Agostini aos comandos de uma MV Agusta. A dupla italiana, formada pelo talentoso piloto italiano e a moto nascida do sonho do Conde Agusta para dominar as pistas nundiais resultou num conjunto que, ainda hoje, é reconhecido como a dupla mais forte de sempre no Campeonato do Mundo de Velocidade.

Juntos, “Ago” e a MV, conquistaram 13 dos 15 títulos mundiais obtidos pelo italiano que ainda o colocam no topo da tabela dos pilotos com mais títulos de Campeão Mundial e 123 vitórias, repartidas pelas classes de 350cc e 500cc. O domínio exercido por esta dupla não teve precedentes nem sucessores. Foram sete títulos mundiais consecutivos em 500cc, entre 1966 e 1972, e seis títulos mundiais consecutivos em 350cc, entre 1968 e 1973. Com a particularidade de, entre 1968 e 1972 (cinco anos consecutivos), teram sido Campeões em simultâneo de 350cc e 500cc! Um registo de que mais ninguém se aproximou. Agostini foi ainda Campeão do Mundo de 350cc (em 1974) e 500cc (em 1975) com a Yamaha, o primeiro a consegui-lo com motores a 2 Tempos. Títulos que – ironicamente – puseram fim do domínio da MV Agusta (e dos motores a 4 Tempos) que dominara a cena mundial desde… 1958!


O homem


Giacomo “Mino” Agostini nasceu a 16 de junho de 1942, em Brescia, numa Itália empobrecida e tumultuosa em plena II Guerra Mundial. Filho mais velho, de quatro, de um industrial operador de Ferries no Lago Iseo, cedo despertou para os desportos motorizados, começando a dar nas vistas nas corridas de estrada e em rampas, apesar da resistência paternal, vencida por fim quando, aos 21 anos, se sagrou campeão italiano de velocidade de 175cc aos comandos de uma Moto Morini.

Em 1964 conquistou o título nacional de 350cc e deu nas vistas nas suas primeiras participações em provas do “Mundial” (P4 no GP da Alemanha Ocidental e P4 no GP das Nações em Monza). Estas exibições não passaram despercebidas ao Conde Domenico Agusta, cuja marca MV dominava as cilindradas principais, 350cc e 500cc que o contrata em 1965 para se juntar a Mike Hailwood, o grande dominador das pistas, e Campeão do Mundo de 500cc em 1962, 1963, 1964 (a que juntaria o de 1965, o último antes da “Era Agostini”).

Nesse ano, “Ago” segue de perto o seu “chefe de fila” inglês, terminando em segundo em seis ocasiões, com uma vitória apenas, na Finlândia. Terminou como vice-campeão no seu ano de estreia, tanto em 500cc, como em 350cc, aqui atrás de Jim Redman, o Campeão em título. No final dessa temporada, Hailwood abandona a MV, cansado do feitio imprevisível de Agusta e insinuando que este tinha uma preferência pelo jovem italiano. Mike “The Bike” trocou a MV pela Honda, cedendo por fim aos “chamamentos” de Soichiro Honda para quem já havia competido anteriormente nas cilindradas mais baixas. Teria início uma das grandes rivalidades – e um dos maiores espetáculos de sempre – desde desporto nas temporadas de 1966 e 1967, com o confronto no TT da Ilha de Man de ‘67 a ficar como um marco incontornável desse confronto. Um “duelo” sem tréguas e repleto de peripécias que culminou com a vitória de Hailwood depois de “Ago” ter visto a corrente de transmissão partir-se na sua moto.

“Ago” e Hailwood, apesar da intensa rivalidade – que ainda hoje divide os fãs - eram amigos e nutriam grande respeito um pelo outro. Hailwood era força, travagens no limite e escorregadelas perigosas, Agostini era fineza, fluidez, eficácia pura… Tão diferentes e tão iguais na grandeza do talento. A retirada da Honda no final dessa época deixou a MV Agusta a dominar por completo o panorama das principais corridas. A ponto de Agostini ter vencido todas as corridas em que participou nas duas cilindradas entre 1968 e 1970.

A gloriosa parceria entre “Ago” e a MV terminaria de modo amargo. Por um lado a morte de Domenico Agusta em 1971 comprometeu o futuro da marca e o desenvolvimento da moto, por

outro, a entrada de Phil Read na equipa minou a relação entre Agostini e o staff. Read foi Campeão do Mundo de 500cc com a MV Agusta em 1973, pondo fim do domínio da dupla “Ago”/MV, e 1974… já com Agostini a representar a Yamaha.


A máquina


Entre 1950 e 1966 a MV Agusta participara no Mundial de Velocidade com várias versões da bem sucedidda 500 4C, de quatro cilindros, mas os sete títulos mundiais conquistados em 500cc por Giacomo Agostini foram-no aos comandos da icónica MV Agusta 500 3C, a moto de três cilindros a 4 Tempos desenhada pelos engenheiros Arturo Magni e Mario Rossi que derivava da sua “irmã menor” de 350cc e fora resultado da forte insistência de Domenico Agusta.

Inicialmente foi utilizado o tricilíndrico bem sucedido de 350cc, com a cilindrada aumentada para 420cc e o motor evoluído da versão de duas para quatro válvulas por cilindro. Em 1967, mantendo a arquitectura do motor, a cilindrada subiu para 498cc. O motor era refrigerado por ar, alimentado por carburadores Dell’Orto de 27 mm e a caixa era de sete velocidades; debitava 84 cv e atingia os 261 km/h. Os travões eram de tambor (a versão final recebeu travões de disco). Pesava 118 kg a seco.

A “Tre” encaixava perfeitamente no estilo de condução mais puro de Agostini. A sua leveza e facilidade de manobra “casavam” na perfeição com a “finesse” de pilotagem de “Ago”. Em 1973, na tentativa de combater a crescente competitividade das máquinas japonesas a 2 Tempos, a MV Agusta estreou a 500/4, equipada com um motor de quatro cilindros. Read deu-lhe os títulos de 1973 e 1974, mas foi batido em 1975 pela Yamaha de… Agostini.

Vítor Sousa
Por Vítor Sousahá 4 meses • 9 Junho 2026, 15:25